quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Moby Dick


Moby Dick, de Herman Melville
EUA, 1851
Várias edições. Nas passagens citadas aqui, usei a da Cosac Naify, lançada em 2009 e a mais recomendada, com tradução de Alexandre Barbosa de Sousa e Irene Hirsch.

Moby Dick é uma obra tão colossal quanto ampla no escopo, e apontar o subtexto homoerótico do livro tampouco é alguma novidade. Na Renascença Americana, Melville está para a prosa como Whalt Whitman para a poesia.

Em seu A History of Gay Literature, Gregory Woods já aponta o modo como o olhar de Melville se foca, em suas palavras, "numa masculinidade dinâmica, expressa e completada por meio da ação física". Já em Hero, Captain, Stranger: Male Friendship, Social Critique and Literary Form in the Sea Novels of Herman Melville, Robert K. Martin afimra que:
"Melville claramente desgosta de homens efeminados; assim como Whitman, seu ideal sexual literário envolve amor entre dois homens, e não um homem e um garoto, ou um homem e uma pseudo-mulher. O homem efeminado é o homem ultracivilizado, que adotou os valores da civilização (ou seja, a mulher) em oposição aos valores primitivos (ou seja, o homem). Este ideal se torna assim a androginía que representa a integração entre os valores civilizados e primitivos, entre homem e mulher. Esta androginia não deve ser confundida com efeminação; para Melville, androginia indica autosuficiência e completude, enquanto efeminação indica fraqueza, indulgência e parcialidade".
Apertando o espermacete
A atração erótica entre marinheiros é abordada na obra de Melville de modo mais direto em Billy Budd, mas em Moby Dick ela funciona não só como fator de coesão mas de destruição entre os personagens - se levarmos em conta a grande baleia branca, uma cachalote (sperm whale) como símbolo fálico.
Dentre as centenas de interpretações a que a baleia se presta, dentro de um romance altamente simbólico, o sperm de seu nome original (em português traduz-se "espermacete", a cera branca produzida na cabeça da cachalote e que, ao longo da história e até fins do século XIX, serviu para a fabricação de velas) era, nos primórdios da indústria baleeira, realmente confundido com o esperma do animal. E nem vamos entrar no mérito fonético entre marinheiros (seamen) e sêmen (semen). O trecho abaixo, uma das passagens mais memoráveis do livro, fala por si só:
“Apertar! Apertar! Apertar! Durante toda a manhã, eu apertei aquele espermacete até que quase me fundi com ele; apertei o espermacete até que um tipo estranho de insanidade tomou conta de mim, e vi-me apertando, sem o saber, as mãos dos meus companheiros dentro dele, confundindo as mãos com os caroços macios. Essa tarefa cria um sentimento tão forte, afetuoso, amistoso, amoroso, que, por fim, eu apertava as suas mãos sem parar e olhava nos seus olhos com ternura, como se quisesse dizer: Ó, bem-amados semelhantes, por que continuar a acalentar as amarguras em nosso convívio, ou tomar conhecimento do mau humor e da inveja? Vinde, vamos apertar as mãos à nossa volta; não, vamos nos apertar uns contra os outros, vamos nos apertar universalmente no leite e no espermacete da bondade.” Cap. 94 - Um aperto de mão
Se Woods considera essa passagem uma das mais abertamente homoeróticas da literatura do século dezenove, Martin vai mais longe: afirma que "toda descrição positiva de sexualidade em Melville é uma descrição de masturbação masculina, com frequência, mutual. Nunca há nenhuma descrição de sexualidade envolvendo penetração" - cita, para além de Moby Dick, passagens de White Jacket e Redburn. No campo simbólico, a palavra "espermacete" é com frequência usada no texto de Melville para se referir à própria baleia, numa obra mergulhada em outros simbolismos fálicos, como os arpões, o próprio Ahab simbolicamente castrado com sua perna decepada, etc.
 

Relação selada sobre a cama
Se até aqui tratamos apenas do aspecto mais latente e simbólico, há que se levar em conta também a relação semi-erótica entre Ishmael e Queequeeg, relação esta que se inicia no compartilhar de uma cama de pensão - que, ressalta o texto, serviu pouco antes à noite de núpcias da senhoria.
"Ao acordar na manhã seguinte, ao romper do dia, deparei com o braço de Queequeeg largado sobre mim da forma mais carinhosa e afetuosa. Você teria pensado que eu era a esposa dele".
O pesquisador inglês Rictor Norton, em seu ensaio sobre o homoerotismo na obra de Melville, nota que o comportamento de Ishmael antecipando a chegada do quase-bárbaro Queequeeg ao quarto ecoa o de uma noiva assustada, ante a visão da "cabeça calva avermelhada" (bald purplish head), deste purple rascal (que pode ser traduzido como "maroto avermelhado"), dentre outros eufemismos facilmente identificáveis. A partir do capítulo 4, A colcha, sucedem as comparações matrimoniais entre os dois, do qual resulta, inclusive, na visão da machadinha como filho simbólico da dupla:
"Mas pouco a pouco fui recordando todos os acontecimentos da noite passada e por fim a comicidade da situação prevaleceu. Tentei tirar seu braço – desfazer seu abraço de noivo – mas, como ele estava dormindo, ele me abraçava com força, como se nada além da morte pudesse nos separar. Tentei acordá-lo – “Queequeg!” – mas sua única resposta foi um ronco. Virei-me de lado, e era como se houvesse uma coleira de cavalo em meu pescoço; de repente senti um leve arranhão. Tirei a colcha e vi que a machadinha dormia ao lado do selvagem, como se fosse um bebê com cabeça de machado".
Culpa e casamento
Mais adiante, Ishmael escuta um sermão onde não faltam referências ao "adúltero que fugiu da prisão em Gomorra" ou ao "assassino de Sodoma" que o faz se sentir culpado, até ocorrer seu reencontro com Queequeeg no capítulo seguinte, com um ritual simbólico de união:
"Ele parecia ter se afeiçoado a mim tão natural e espontaneamente quanto eu a ele; e, quando acabamos de fumar, encostou sua testa na minha, puxou-me pela cintura e disse que a partir daquele momento estávamos casados; o que significava no dizer de seu país que éramos amigos do peito; morreria por mim de boa vontade, se preciso fosse. Num conterrâneo, este súbito ardor de amizade teria parecido um pouco prematuro, algo bastante suspeito; mas a este simples selvagem as tais velhas regras não se aplicavam".

Ao que conclui
"Não sei por quê; mas não há lugar mais propício para confidências entre amigos do que uma cama. Marido e mulher, dizem, ali abrem até o fundo da alma um para o outro; e alguns casais idosos muitas vezes ficam deitados conversando sobre os velhos tempos até o amanhecer. E assim, na lua-de-mel de nosso coração, eu e Queequeg ficamos deitados – um casal aconchegante e amoroso".
No c capítulo 11, Camisola, abre-se numa espécie de lua-de-mel, em que o corpo do outro surge como porto seguro:
"Ficamos assim deitados na cama, conversando e cochilando de pouco em pouco, e de vez em quando Queequeg jogava suas pernas morenas e tatuadas com carinho sobre as minhas, tirando-as em seguida; havia total liberdade entre a gente, éramos tranqüilos e confidentes; por fim, como conseqüência das nossas confabulações, perdemos o pouco sono que nos restava e sentimos vontade de nos levantar de novo, embora a alvorada ainda estivesse muito distante no futuro".
Com uma reflexão sobre o conforto do calor do corpo, feita no momento em que ambos estão debaixo dos lençois:
"Ainda mais, digo, porque para se desfrutar de fato do calor do corpo é preciso que uma pequena parte sua ainda esteja fria, pois não há qualidade neste mundo que não o seja por contraste. Nada existe em si mesmo. Quando você se gaba de se sentir bem confortável e fica assim por um longo tempo, então já não se pode mais dizer que você continua confortável do mesmo modo. Porém, se, como no caso de Queequeg e eu na cama, se a ponta de seu nariz ou o topo de sua cabeça está um pouquinho frio, então na percepção geral você sente o mais delicioso e inequívoco calor. Por essa razão, um quarto de dormir nunca deveria ter lareira, o que é um dos desconfortos luxuosos do rico. Porque o apogeu desta espécie de delícia é não ter nada além do cobertor entre você e seu corpo abrigado e o frio do ar externo. Então ali você se deita como a única centelha de calor no coração de um cristal ártico".
A essas alturas, deve se lembrar que Queequeeg é um nativo de uma ilha fictícia do Pacífico Sul, e já na época de Melville, era bem sabido que entre tribos da Polinéisa (por onde ele navegou) uniões entre membros do mesmo sexo eram bastante comuns (afora a questão de Queequeeg ser um canibal - um homem que devora outros homens). De todo modo, sua caracterização como portador de "hábitos selvagens" ou estrangeiros, remete à lembrança de que, para cada nação européia, a sodomia era sempre o "vício estrangeiro" - os "hábitos franceses" para os ingleses, "os vícios italianos" para os franceses, e assim por diante. Embora Queequeeg vá perdendo importância na trama com o desenrolar da viagem do Pequod, será no caixão que o canibal construira para si mesmo que Ishmael encontrará sua salvação, ocupando nele o espaço reservado ao corpo do outro.

Em um autor e obra tão inegavelmente chegados à simbolismos, as escolhas de palavras e momentos que caracterizam o relacionamento entre Ishmael e Queequeeg são tão latentes que não creio que se pudesse considerá-las sequer codificadas - são o mais próximo, talvez, que um autor conseguiria chegar, em seu tempo, de abordar uma relação que, se não chega a ser sexual, é certamente homoafetiva. Claro que um leitor pode tomá-las apenas no sentido mais estrito e literal, se assim quiser, excluindo a interpretação de uma relação afetiva entre os dois - mas para isso seria necessário abdicar também de todas as outras interpretações simbólicas do livro, o que, convenhamos, tira todo o sentido da obra em si.

Herman Melville
Notas:
• Sobre a sexualidade do próprio Melville não há, e provavelmente nunca haverá, uma resposta definitiva.  Sabe-se com certeza que não suportava a companhia da própria esposa, preferindo a de marinheiros nos portos e bares, além de alistar-se em diversas viagens marítimas. Tinha uma completa devoção pelo amigo Nathaniel Hawthorne, e há uma referência minima perdida em algum lugar entre ele e uma estátua de Antinoo, o amante-deificado do imperador romano Adriano, que durante o século XIX era um símbolo e objeto de culto entre colecionadores homossexuais, um dos muitos códigos de identificação utilizados.

• Se não faltam edições em português, recomendo a edição da Cosac Naify, seja pelo projeto gráfico (talvez a única em português a dar conta, fisicamente, do aspecto colossal do livro,), seja pelo excelente fortuna crítica anexa, com material de apoio, apêndices, ilustrações e mapas.


2 comentários:

  1. Não sei se a tradução que li não era tão clara assim ou se, na época, eu fiz a leitura mais literal possível, mas o fato é que a tarefa de reler Moby Dick agora me parece muito interessante.

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  2. Se tu gosta tanto de Moby Dick assim, tem que ler Bone, em que o personagem principal se compara com Ishmael. Outro quadrinho que literalmente se coloca na história é O Inescrito, em que Tom Taylor encarna o Ishmael e se depara com outros personagens que enfrentam baleias como o Barão de Munshausen, Jonas e o Pinóquio.

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